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Psicoterapia Existencial: uma ilustre desconhecida

Há algum tempo, os órgãos oficiais representativos dos psicólogos no Brasil (Conselhos Federal e Regionais de Psicologia) vêm comemorando algo que pode soar estranho para quem não está familiarizado com o campo de humanas: a diversidade.

Profissionais da área de exatas, como o engenheiro ou o técnico em computação, provavelmente acharão esta comemoração um tanto quanto peculiar, pois o que busca a ciência exata tradicional é exatamente o oposto: a unificação das visões, uma resposta única para os problemas.

Nós reconhecemos, após tantas tentativas, que isso é impossível na prática psicológica. Quem nunca ouviu durante a graduação, da boca de pelo menos um professor na faculdade de psicologia, que “não há receita de bolo”?

Ponto para nós!

É bom sabermos que nossos órgãos representativos consideram a multiplicidade como uma vantagem e não um obstáculo. Nesse contexto, alguns veículos da mídia psi também têm colaborado ao reservar espaços para diversas abordagens.

Entre elas, está a psicoterapia existencial, esta ilustre desconhecida das universidades, das instituições e da prática da psicologia (clínica, hospitalar, escolar, organizacional etc.), pois todos sabem que ela existe (como diz seu próprio nome) mas nem todos sabem o que realmente é.

Se não a considerarmos desconhecida, que seja ao menos “marginal” (no sentido de dificilmente ocupar o centro dos estudos, estando sempre à margem).

Não se trata de uma disputa, mas de uma opção para aqueles profissionais que não se identificam com as linhas teóricas mais comumente difundidas.

Origem filosófica

No senso comum o termo “existencial” pode tanto remeter a autores de indiscutível conhecimento e experiência a respeito dos dramas humanos (psicólogos, filósofos ou literários) quanto à imagem de psicólogos mórbidos, ateístas ou irresponsáveis, que cometem atrocidades em nome do “existencialismo”. Também já ouvi que a expressão representaria um profissional de rigor extremo ao exercer suas funções.

Seja qual for a nossa maior fama, a suposta irresponsabilidade dos existencialistas é, na verdade, um grande e sério pré-conceito, talvez o maior de todos.

É preciso que saibamos que há bons e maus profissionais em todas as abordagens teóricas da psicologia e em todo e qualquer ramo da sociedade.

Porém, pela escassez de informação séria em relação à psicoterapia existencial, fica muito mais fácil justificar práticas no mínimo questionáveis e irresponsabilidades profissionais em nome de algo que poucos conhecem.

É claro que este fato ocorre também em outras áreas mas é muito mais difícil discernir aqueles que estão coerentes com o pensamento existencial do que em relação às outras vertentes teóricas mais difundidas.

O momento presente, no entanto, parece demonstrar que essa realidade está mudando, graças à oportunidade oferecida aos existenciais de mostrarem sua integridade profissional, mesmo não sendo herdeiros diretos das abordagens mais tradicionalmente conhecidas dentro da psicologia, como a psicanálise e a psicologia comportamental, por exemplo.

O grande incômodo (e este é o diferencial) parece ser o impacto causado pela afirmação de que o Homem é um ser de possibilidades, um ser livre que não está necessariamente sujeito aos determinismos, sejam eles psíquicos ou ambientais.

Isso muda tudo: a postura do psicoterapeuta, sua atuação, sua visão clínica e milhares de outras peculiaridades que precisariam ser expostas ponto por ponto do setting terapêutico.

As referências de estudo para a psicoterapia existencial são, portanto, bastante abrangentes e mais ligadas à Filosofia que à Psicologia.

Este ponto talvez seja ao mesmo tempo a vantagem e o calcanhar de Aquiles da abordagem, pois sem a devida profundidade filosófica, o pensamento existencial pode se tornar um laisse-faire (“deixa-fazer” de qualquer jeito).

Em relação à psicologia de modo geral, não se trata apenas de adicionar, ou seja, de conhecer mais a respeito, mas também de re-conhecer o que já existe. Há influências existenciais em boa parte do que temos hoje sem que saibamos.

É perceptível em outras abordagens teóricas mais recentes, como a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalt-Terapia, uma forte influência do pensamento fenomenológico e existencial, seja em seus pressupostos, seja na referência de atuação prática das linhas humanistas em geral, que defendem uma participação menos ortodoxa do psicoterapeuta.

Luta antimanicomial

Um forte exemplo desta influência seria a tão aplaudida luta antimanicomial que, em meados dos anos 60, já tinha início na psiquiatria pela voz de R. D. Laing e D. G. Cooper, que, baseando-se no pensamento de Sartre, fundaram a antipsiquiatria: questionaram toda a base da psiquiatria tradicional, seus diagnósticos, seus métodos e, inclusive, a medicação utilizada.

Pregaram um tratamento mais humano aos pacientes psiquiátricos, já que não se fazia muito mais do que dopá-los e trancafiá-los para que não perturbassem ninguém (prática que tentamos combater até hoje).

Não diferem muito entre si as duas lutas. É claro que Laing e Cooper não estão diretamente ligados ao movimento tão atual e politizado que temos hoje no Brasil.

Este movimento que já alcançou tantas vitórias que, em princípio pareciam (e talvez fossem mesmo) muito distantes de se concretizarem, configura-se hoje como um movimento multiteórico, ou seja, não é necessário apegar-se a uma linha teórica ou abordagem específica para aderir a ele.

Podemos, como classe, nos dar o exemplo desta luta, que abriga profissionais unidos pela humanização independente de seus pensamentos e crenças, sem se importar como cada um configura seu setting terapêutico, acreditando fazê-lo da forma mais adequada possível para ajudar na diminuição do sofrimento alheio de maneira eficaz.

Nada disso interessa quando lutamos pelo fim de atrocidades que tanto perturbam. E isso é, sem a menor sombra de dúvida, um olhar atento e uma valorização da existência humana.

As influências não param por aí.

Dentro ou fora dos movimentos sociais, os ecos da existência continuam.

E a luta pelo direito à diferença também.

Publicado originalmente na revista Viver Psicologia. Nº 127 – Ano XII – Agosto de 2003.
São Paulo: Editora Segmento; pp. 24-25.

O mesmo foi reproduzido em sites relacionados.

Torres Psicologia